Já faz algum tempo que parei de escrever pensando em audiência. A cada palavra fica mais claro o poder nirvânico que enfrentar o papel em branco tem pra mim. E isso basta. Pra que mais?

Digo isso porque o blog acabou virando um diário etílico, cinéfilo, literário e gastronômico. Um sincretismo conceitual que muito me orgulha. Mas, verdade seja dita, está muito longe da proposta inicial. Quem se importa afinal? O número de pessoas que leem os relatos deste muro repleto de pichações virtuais é praticamente nulo. O que, a meu ver, torna os leitores mais próximos e íntimos e intensifica o processo terapêutico da escrita em primeira pessoa.

Claro que gostaria de dedicar mais tempo ao conteúdo gerado por aqui. Afinal o texto flui livre, sem cobranças, alterações e prazo. Ninguém perguntou, mas o desapego acontece por falta de tempo, não vontade. Recentemente voltei ao mercado de trabalho, o que contribui para que eu deixe este espaço no inconsciente. Mas, por outro lado, estou imensamente feliz por voltar a poder gastar dinheiro com livros, dvds, comes e bebes.

Pra variar, com o perdão do trocadilho, também continuo com a mente avariada. A insônia tornou-se quase inexistente. Porém, tenho tido alguns picos de uma tristeza seletiva. Geralmente aos domingos, quando começa o Faustão – hora em que peço aos céus pra que mundo pare um pouco. Mas ele se recusa a ficar parado pra que eu o entenda com clareza.

É quando vem lembranças de quem se foi e não voltará mais. Quando pessoas queridas morrem, você começa a repensar diversas coisas. Os sentimentos tornam-se finitos numa escala que é impossível voltar atrás. Você muda além do próprio reconhecimento. É preciso tomar cuidado, se não pira. No meu caso, uma overdose de cultura ajuda bastante. Ler algo interessante sempre será um prazer a ser superado.

Meus olhos passearam por muita coisa boa em 2017. É o caso do romance TIRZA e O HOMEM SEM DOENÇA, ambos do holandês Arnon Grunberg. Autor que ganhou espaço na minha estante pelo fato de criar personagens que são vítimas da necessidade de parecerem civilizados sob qualquer circunstância. É louvável quando um escriba lança sempre o mesmo livro, só que de uma forma diferente.

As características que alçaram Grunberg a um lugar de destaque na ficção contemporânea são notadas em todas suas obras: a prevalência do dinheiro na constituição dos personagens, a falta de qualquer traço de piedade em relação aos seus protagonistas e a narrativa repleta de mal-entendidos e conflitos de versões. Outro ponto digno de nota é a presença de um desacordo permanente entre situações corriqueiras e absurdas, que encontra na violência uma espécie de reconciliação com o real. E o real é muito mais assustador que a ficção, não? Rezo pra que a Rádio Londres siga lançando mais coisas do autor por aqui.

Outro que estou lendo aos poucos, pra não acabar tão rápido, é A GRANDE CAÇADA AOS TUBARÕES do mestre Hunter S. Thompson. Nas páginas infestadas de cerveja barata e anfetamina o autor apresenta todas suas facetas. Desde o famoso O Kentucky Derby é Decadente e Depravado, texto que deu origem ao Jornalismo Gonzo, passando pela cobertura alucinada do caso Watergate, até sua incursão pela América Latina nos anos 60 descrita em textos escritos pra National Observer. E é aí que mora um ponto de estranha conexão com os tempos atuais.

Thompson esteve por aqui quando ainda era um repórter desconhecido, num período em que as ditaduras estavam aflorando por todo continente. Sem falar espanhol ou português entrevistou contrabandistas de La Guajira, na Colômbia, cobriu um assassinato numa boate carioca e discorreu sobre a morte da democracia e a marginalização dos indígenas peruanos.

No Rio, ele cantou a bola sobre a deposição do presidente João Goulart um ano e dois meses antes do golpe militar de 1964. Em suas palavras: “Uma revolução, mesmo sem armas, provavelmente viria de dentro das Forças Armadas”, previu. “Além disso, ela seria bem-sucedida. O presidente não tem a maioria dos militares a seu lado para sobreviver a um confronto. ” Para ele, o Brasil seguia a trajetória histórica dos países vizinhos. “Onde a autoridade civil é fraca e corrupta, os militares tomam o poder automaticamente. ”

Não é chocante que mesmo em constante movimento, o mundo não muda?                          Bom, talvez eu que tenha percebido isso tarde demais.

Mas, voltando ao assunto inicial da postagem, não é só trabalho, leituras ou questões existenciais que passeiam pela minha mente no momento atual. Tenho dedicado tempo pra rodar a cidade acompanhado de uma Cannon t5i e uma estúpida determinação. As expressões das pessoas de São Paulo sempre me chocam, seja pro bem ou pro mal. Resolvi começar a capturá-las.

Criei uma abordagem chocante: chego gritando algo sem significado, apenas sonoro. Isso atrai aquele olhar de presa em perigo, de fraqueza urbana, de medo da violência, de choque pelo desconhecido e de curiosidade pelo novo. É preciso ser rápido. O estado de choque dura apenas três segundos, o dedo tem que estar engatilhado e o foco ajustado.

A fotografia de rua está enraizada no incomodo e no transgressor. Ninguém quer ser clicado após uma noitada regada a Drurys e cocaína ou passeando com cachorro usando camisola e Rider num domingo de manhã. E tem o sentimento do fotografo também, você se torna uma espécie de paparazzi do povo. As chances de dar bosta são enormes. Por isso, a adrenalina vai lá em cima.

Outro dia, num role pela Avenida Paulista, fotografei um senhor numa cena bonita: ele segurava o carrinho de brinquedo do neto enquanto assistia ao desfile de uma banda marcial que passava pela avenida. Quando o cliquei, o tiozão ficou fulo da vida. Desferiu-me um direto de esquerda que desviei habilmente salvando a câmera. Apoiei os braços na calçada pra não cair de boca no asfalto. Num movimento rápido rolei no chão e impulsionei pernas e braços pra me por de pé novamente. O tio cobrou um tiro de meta no vazio, o pé dele passou a 2cm da minha cabeça.

Quando recuperei o equilíbrio pensei em tentar mais um clique, mas preferi evitar apanhar em praça pública. Sai no pinote. Antes de virar a esquina olhei pra trás e o senhor estava parado segurando o carrinho com uma mão enquanto o dedo médio da outra futucava no ar em minha direção. Voltei pra casa com uma bela imagem e uma ótima história pra contar.

Além das fotos, tem os roteiros. Sempre acabo com uma ideia de filme na cabeça e a transporto para o papel. Muitas delas, realmente, são uma merda. Mas, novamente, quem se importa? O que interessa é que a cada toque nas teclas eu chego mais perto de algo. O que eu não sei. Algumas vezes de um próximo filme, outras, apenas de uma satisfação pessoal por me expressar daquela maneira. E isso importa, sim.

Existem projetos que nasceram pra não sair do papel. Mas que me alimentam de outra maneira. Por dentro, eu diria. Os fracassos inspiram muito mais que as glorias. Personagens mais profundos surgem da desgraça, da degradação e do inesperado.

O que nos trás de volta ao blog. A ideia aqui era escrever sobre experiências em restaurantes, balcões e viagens. O que me desmotivou quando me dei conta que tem tanta gente fazendo isso e eu seria apenas mais um. Depois pensei em postar contos recentes. Mas ao reler cada um deles, não achei que tinham o charme do momento em que foram concebidos. Escrever é amar num dia e odiar no outro.

Mas tem algo que é único e original em todos nós: a nossa história. Isso é impossível de copiar ou de fugir. Nem todas as histórias são interessantes, a minha é só mais uma delas. Independente disso, resolvi seguir meu coração. Percebi que compartilhar um pouco do que sou de verdade diminui a dor e a frustração que me ataca de tempos em tempos. E se você leu até aqui, é parte desta transformação. Agradeço do fundo do meu estômago nauseado.

Vamos tomar umas?