A insônia cessou. Agora, todas as manhãs, a primeira coisa que penso é que estou nascendo de novo. E, então, começo a tatear o futuro como se fosse um cego. Procuro por vagas de emprego, não encontro nada de interessante. Fico nos freelas. O que significa cada dia uma surpresa. De uma websérie para uma marca de absorvente a postagens sobre um mosteiro. Job tem. Mas nem sempre os melhores.

O lado bom do desemprego é o tempo livre pra minhas obsessões. Tenho me debruçado num roteiro que me apaixono mais a cada novo tratamento. Dá gosto sentar a máquina pra escrevê-lo.

Adoro esta parte do processo de um filme em que é analisado se a porra toda faz sentido ou se é apenas um amontado de ideias. Podem até ser boas cenas, mas se não funcionarem como uma orquestra não rola, não. Depois de 14 tratamentos, creio estar perto do objetivo. Se vai do papel pra tela, não sei. Mas tem todos os ingredientes pra isso: mistério, crime, política e romance.

Também voltei a brincar com a câmera. É algo que distrai a mente. Vou a pé com frequência à estação Santa Cruz bater umas fotos. Lá se encontram diversos orientais em idade avançada, o tipo que mais gosto de clicar. Tenho a impressão de que vou adquirir um pouco da sabedoria e truísmo que emanam das imagens de tanto que as encaro. É um prazer voyeur. Mas ainda assim uma boa distração.

Como as caminhadas se estendem por duas, às vezes três horas, preciso dar um relax. O melhor lugar pra isso é o cinema do shopping que, apesar de não ter ar condicionado, me proporciona invisibilidade. E o invisível é invulnerável.

Nas sessões das 15h35 é comum ter só euzinho na sala. Sem barulho de pipoca mastigada, sucção de canudo, laser na tela. Nada. Apenas silêncio espectral.  Após a sessão, pego um fim de tarde bem legal pra caminhar novamente. Clima fresco, céu laranja e fones no ouvido.

Como ainda é cedo e o Veloso abre naquele horário, me abrigo por lá. Tomo quatro chopinhos, belisco uma porção de coxinha e dou linha. Deus me livre de muvuca.

Odeio gente que bebe pateticamente, fazendo careta e forçando risada. E ali, depois das 18h, é isso. Uma pena porque o Veloso respeita o bebedor e o comensal, algo raríssimo no bairro.

Com o bucho cheio, caminho até a Joaquim Távora. Mais uns três chopes no Jabuti. Boto em dia o papo com o Magrão e o Bigode. Tudo continua normal por lá. Uma branquinha e a saideira.  Volto à máquina por mais umas duas horinhas. Deito na cama. Relaxo.

A insônia não voltou.