Já faz algumas noites que a insônia voltou. Pontualmente às 2h32 da manhã um passarinho inicia seu ritual cântico. Um frenesi enlouquecido próximo a minha janela. É todo dia assim, mas tudo bem. Sigo vivo e gozando de certa saúde. Se o passarinho é meu único problema, tá ótimo.

Distraio a cabeça ao ir à busca de algo pra ler, afinal insônia se aproveita. Lembrei-me de uns livros que estavam guardados num depósito. Permaneciam intocáveis há dois anos. Retidos, empoeirados, alguns com fungos. Mas foi surgir um espaço na prateleira que eu trouxe eles de volta. Analisei o material com a obsessão que me é rotineira. Virar páginas é melhor que virar na cama.

Reencontrar um exemplar antigo de um livro é reencontrar um velho conhecido. Nem sempre é bom. No primeiro contato, estranhamento. Leva alguns segundos pra se dar conta do que está a sua frente. Uma folheada rápida que evoca lembranças, então tira o pó, repara nas escoriações. O que teria mudado naqueles anos?

Uma coisa é fato: somente se as páginas viradas foram memoráveis, você se atreve a reler alguma coisa. Dedicar tempo a uma obra literária é algo extremamente íntimo, às vezes visceral. Caso contrário, você enxerga, mas fingi que não vê. É só mais um na estante.

Numa primeira pescada, encontrei e folheei Rimbaud. Mas imaginei Bukowski com cigarro em riste e pança pulando pra fora da camisa. Ele vociferava contra os poetas desta geração. Concordei com ele, claro. Ali, no mesmo cenário, Faulkner ajusta a gravata e suga um resto de cerveja do bigode. Maldito fluxo de consciência, pensei.  Eis que surge Fernando Pessoa que se transforma em Ricardo Reis, depois em Álvaro de Campos e ainda em Alberto Caeiro.

Largo os livros, ligo a máquina. É hora das palavras dançarem.

A madrugada tem um sossego misantropo que me permite ir além da história. É um conceito abstrato, como livre arbítrio ou a eternidade, mas que está lá. Sem falar no silêncio sepulcral que leva pra mais longe. Um deleite pra qualquer escritor. De fato, existem mais coisas a serem escritas do que a serem faladas. E mais coisas pra serem lidas do que pra serem assistidas.

Por isso, cá estou, devaneando através de um documento de Word, às 3h42 da manhã. Afinal, os escritores são os guardiões da memória. De qualquer forma, tenho como desculpa a insônia que me inspira. Ou talvez seja a madrugada. Quem sabe o cântico oriundo da janela? Já não interessa mais. O que importa é que as palavras estão voando como pássaros num frenesi enlouquecido.