Irmão,

Dia desses me peguei pensando na sua risada. Não qualquer uma, avulsa, mas daquelas que você só soltava quando estava realmente à vontade. O que acontecia quando a gente relembrava os causos da infância/adolescência alegremente ébrios ou durante embates sobre as situações empíricas do dia a dia. Era uma gargalhada vistosa, plena, que realçava seus cabelos lisos e os teus olhos pestanudos.

Vira e mexe tento reconstruí-la na minha cabeça como se fosse uma espécie de quebra-cabeça psicodélico. O tom, o acento e o final em que a risada se transformava em riso, aquele sopro de vida colorida. Mas assim como as do Datena, minhas reconstituições nunca são perfeitas. Afinal cada risada tem uma cacofonia só dela, um espectro que é de cada persona – uma explosão autoral.

Pra ilustrar, vou contar o que aconteceu de maneira sucinta. Era o começo de mais uma madrugada e eu já tinha devorado uma dezena de páginas de Deuses Americanos. Acabo de ler, apago a luz, me jogo de bruços na cama e fico pensando em não pensar em nada.

Quando menos espero vem um estrondo mental: imagens desconexas, lembranças do que eu queria esquecer, sentimentos mostrados de um ponto de vista macabro, pensamentos infrutíferos e o cacete paranoico a quatro. Aí sim, depois do turbilhão, sono tranquilo.

Algumas horas em coma, acordo meio ressabiado e, com o sonho ainda fresco na mente, levanto e vou até varanda. Isso aconteceu bem naquela hora que num é dia nem noite, então a imensidão do céu alaranjado me fez pensar que é um desperdício dormir demais. Um prelúdio pra deitar na varanda com os braços aninhados na cabeça e fumar um cigarro contemplativo. Fiquei ali até o sol e o relógio entrarem num acordo e proclamarem que era dia. Naquele momento senti sua presença ali comigo, mais do que em qualquer outra hora até aqui, desde que você se foi.

E quem sorriu fui eu.