Estranho começar este blog com um adeus, porém é a melhor maneira de representar o que estou prestes a relatar. A verdade é que nos últimos meses tive um acesso de algo que batizei de loucura sã. Depois de todo processo de um livro que se estendeu além do esperado, viver as glórias e as armadilhas de fazer cinema independente no Brasil e seguir contra vontade criando campanhas publicitárias pra pagar as contas, confesso: estava cansado de escrever.

Isso valia também pras poesias, fábulas, lendas, contos – do vigário ou não -, aforismos, axiomas e trovas escritas nas madrugadas ébrias e sombrias. Nada mais me motivava a espancar os teclados com a mesma entrega e intensidade de um participante do Clube da Luta. No espelho eu via os olhos aumentados pelas olheiras roxas e uma expressão de quem vive se perguntando: “What a fuck?”. O mundo a minha volta era qualquer coisa vagando entre o chato e o entediante. E eu estava louco, apenas.

Botei o bode do mundo em fogo baixo na minha mente – e deixei lá cozinhando. A primeira elucidação foi afastar-me do Facebook, o que se mantém até hoje: postar menos, viver mais. Depois entrei na academia, comecei a correr no parque, passei a comer de maneira saudável e menos compulsória, abandonei a Coca-Cola, diminui o álcool. Preocupações que até então, nos alto dos meus 30 anos, nunca havia tido. Por outro lado, eu e as palavras tínhamos, de fato, dado um tempo. Respirei fundo e fui buscar um tipo diferente de plenitude.

Mas olha só, pra que fique bem claro: não virei a Madre Teresa palestrando no AA. Vez ou outra – tipo toda semana – tomo meus pilequinhos homéricos pra fugir da rotina e devanear sobre o tudo e sobre o nada. A boemia esta enraizada em mim, não tem jeito. O que me resta é não perdê-la de vista, afinal ela é parte vital no todo que impede que eu não seja totalmente dominado pelas amarguras da existência.

Não tenho escrito, é fato. Mas tenho lido. E muito, viu? Os cem melhores contos brasileiros do século é minha atual obsessão literária. Sob a batuta de Italo Moriconi, um dos mais prestigiados estudiosos da literatura nacional, o leitor é convidado a um passeio por uma linha do tempo onde se lê ficção curta brasileira escrita num período que vai de 1900 até o fim dos anos 1990. Machado de Assis, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Rubem Braga só pra citar os mais conhecidos, em suas melhores performances nas shorts stories.

Pornopopeia, do Reinaldo Moraes, também ganhou meu fanático apreço porque é marginal, sujo, visceral e pornográfico – tudo ao mesmo tempo. O que falar de Medo e Delírio em Las Vegas? Reli no meu exílio iletrado e foi à prova cabal que o mestre Hunter S. Thompson sempre tem algo a nos ensinar sobre a aventura humana.

E os filmes então? Tenho revisitado grandes clássicos como faço todos os anos. A trilogia do Poderoso Chefão foi o primeiro deles, antecedendo a leitura do clássico de Mario Puzo. Repeti o procedimento com Medo e delírio em Las Vegas e foi o mais perto que pude chegar de uma viagem de ácido sem dropá-lo de fato.

Midnight Cowboy de 1969, com Jon Voight e Dustin Hoffman, filme sobre um vaqueiro do Texas que vai pra NYC tentar a sorte como garoto de programa foi das melhores coisas que meus olhos avistaram nos últimos tempos. Como eu ainda não o conhecia? O filme do diretor John Schlesinger ainda me apresentou a inconfundível voz de Harry Nilsson e sua Everybody’s Talkin, canção que ganhou lugar cativo no meu Spotfy.

Outra coisa é que a cozinha também tem ajudado bastante na árdua tarefa de recuperar forças exauridas. Tenho feito uns troços na medida do possível. Ragu é algo fixo no meu imaginário atual, fiz quatro vezes nas últimas quatro semanas. Ragu de costela. Ragu bolognese. Ragu de linguiça. Ragu é a prova que cozinha é alquimia. Abrir aquele panelão fumegante e exalar a carne de porco, a carne de vaca, o tomate, o pimentão, o aipo e a cenoura, tudo ali junto e misturado numa borbulha frenética, é sentir o elixir da vida entrar pelas narinas.

Cada vez mais tenho descoberto pequenos prazeres em frequentar bons cafés em São Paulo, como o KOF e o Bira, onde eu possa ficar bem de boa lendo ou trabalhando. Wi-fi decente acompanha. Comer bem é mais uma das pequenas obsessões do dia a dia. Tenho frequentado muito o centro da cidade, principalmente o PASV, disparado o melhor cordeiro servido em São Paulo. Quando sobra uma merreca vou ao Frank tomar 1 negroni ou 10.

Cozinhar e comer bem, ver filmes e séries, perder a noção do tempo lendo um bom livro, vez ou outra pilequinhos homéricos. Até que não tá ruim, né? As pequenas coisas são legais pra caralho. É fato que cada uma delas devidamente citadas aqui são uma somatória positiva do que fiz nos últimos tempos, no meu exílio iletrado. Foram seis meses sem escrever praticamente nada que não fosse trabalho ou obrigação, tempo necessário pra encontrar o meio termo entre a minha loucura e minha sanidade, a tal da loucura sã.

E a elucidação final e fatal se deu em uma noite vadia qualquer, quando começou a passear na minha mente algo que arrepiava a espinha no melhor dos sentidos da expressão. Era uma alegria solitária, um amor febril, como se eu tivesse reencontrado o timbre certo da minha risada, perdida há anos. Algo delicioso jorrava no meu íntimo e eu queria dividi-lo com mais gente. Era a ideia de um espaço, localizado bem longe do Facebook, pra compartilhar experiências com liberdade total, seja para linguagem, estilo ou roupagem, que falasse sobre comida e bebida, mas que fosse além da mesa e pousasse a barriga e os cotovelos no balcão, o lugar mais democrático do bar, onde nenhum assunto é censurado. Pensar nisso me causava (ainda causa) um assombrado encanto. Uma crônica psicodélica. Um jornalismo fora da lei. A total anarquia literária. Como definir? Dane-se, quero mais é botar pra fora. E seja o que o bom deus quiser.

Conclusão: a tal da loucura sã segurou minhas mãos e me levou pra fora do estado de absoluta privação social. O badalar sequencial dos dedos nos teclados voltou a ter um sentido ameno e primaveril. A única certeza é que, como toda mesa farta, no menu do Barriga no Balcão encontra-se um pouco de tudo – restaurantes, receitas, cinema, literatura, entrevistas, viagens, experiências psicodélicas – e tudo mais que cause uma estranha conexão entre mim e você, leitor sagaz.

Então fica combinado: vou tentando atualizar quando der, sem pressa, e com amor, como manda o mantra da loucura benigna, e você vai dizendo o que acha ou, também, pode fazer o estilo voyeur dos blogs sem sentido. Estamos juntos, de qualquer forma. Segue a vida.

See you in the próximo post.